Azeite brasileiro, um negócio da China

Azeite brasileiro, um negócio da China

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Artigo de Sandro Marques*

Henry Lin tem 34 anos e mora em Beijing. Ele é responsável pelo marketing do azeite que sua família produz a 1.500 km da capital chinesa, na fronteira com o Tibete. Lin e eu jantamos em Milão, depois de passar alguns dias visitando produtores e degustando azeites na região da Ligúria. Pedimos uma salada de alcachofras frescas, vegetal que Lin não conhecia, e cujo sabor aparece com frequência ao se provar azeites extravirgens de qualidade.

Experimentei uma pequena amostra do seu azeite. Impecável. Apesar da alta qualidade, Lin enfrenta uma barreira na comercialização: o preconceito contra produtos chineses. Mesmo assim, quando sua produção estabilizar ele poderá abastecer o mercado com 250 toneladas de azeite, satisfazendo o consumo chinês que triplicou entre 2010 e 2015, saltando para 33 mil toneladas, de acordo com dados do Conselho Oleícola Internacional. De olho no mercado chinês está a Austrália, que já produz 20.000 toneladas de azeite/ano.

Por trás desse crescimento, além do sabor peculiarmente agradável e do valor simbólico do azeite, está o crescente interesse pelo consumo de gorduras mais saudáveis. No Brasil, esse consumo cresceu 100% entre 2005 e 2015, e só caiu devido aos efeitos da crise econômica. Em 2016 importamos 56 mil toneladas de azeite e o nosso consumo per capita é, em média, de 0,4 litro per capita (o dobro do chinês e 12 vezes menor que o português, de 5,5 litros).

Além do crescimento do consumo, nos últimos anos começou a despontar a produção brasileira, concentrada nos estados do Sudeste e no Rio Grande do Sul. Os produtores do Sudeste comemoram a safra de 2017, que vai render 50 mil litros. Esse também é o número estimado para a safra no Rio Grande do Sul, de acordo com Paulo Lipp, coordenador da Câmara Setorial da Oliveira, órgão da Secretaria da Agricultura, Pecuária e Irrigação estadual. Parece pouco, mas o produto é de excelente qualidade. De acordo com Nilton Caetano de Oliveira, presidente da Associação dos Olivicultores dos Contrafortes da Mantiqueira (Assoolive), que reúne produtores de MG, SP e RJ, o Sudeste está produzindo apenas 20% da sua capacidade total, já que as oliveiras ainda são jovens.

De volta ao Brasil, visitei a fazenda Três Barras Castanhal, em Andradas, MG, que produziu este ano 3.500 litros de azeite e vem obtendo reconhecimento de alguns chefs como um produto de excepcional qualidade sensorial, comparável a marcas internacionais.

Pergunto a Carla Retuci, produtora, sobre a questão do preço. A marcas importadas convencionais de azeite estão no mercado a preços que variam de R$ 18,00 a R$ 30,00. O Borriello é encontrado em lojas especializadas pelo dobro desse valor. É possível atingir o consumidor médio brasileiro com esse preço alto? Carla explica: “Os investimentos são altos e a escala de produção ainda é pequena, mas o consumidor ao provar o azeite, percebe o valor”.

No sul do Brasil, a Azeites Batalha já produz entre 15 mil e 20 mil litros/ano, o que a habilita a distribuir o produto em canais de varejo como grandes redes de supermercado. Carlos Pfaff, diretor comercial da empresa, ressalta: “Ainda não estamos produzindo em nossa capacidade total”. Mesmo com o preço mais alto, a demanda pelo produto brasileiro é crescente, seja pela novidade, seja pela sua alta qualidade.

O azeite brasileiro é um negócio da China.

 

*Consultor, professor nos cursos de pós-graduação em Gastronomia do SENAC e editor do blog umlitrodeazeite.com.br

Nota da Redação: Com o presente artigo, Sandro Marques passa a fazer parte do grupo de colaboradores permanentes de GOSTO Negócios. Aproveitamos a oportunidade para reiterar que o site está sempre aberto a receber contribuições desse teor. Ou seja, as que tragam informações relevantes e valiosas para o desenvolvimento dos negócios do food service e de seu entorno.

 

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